sábado, 24 de julho de 2010

E aí gata, rola um sentimento?


Até então eu nunca tinha bebido. Mas sei lá, precisava impressioná-la. Mas porra, quem disse que beber era a solução? Não sei, todos dizem que a bebida liberta as pessoas da timidez; até libertou, mas me deixou sem limites.

Cheguei na festa por volta de 21:30, apesar de tudo começar 22 horas. “Não esquece de me ligar na hora de sair que eu venho te buscar tá?” – Disse minha mãe, me dando um beijo na testa e me desejando uma boa festa. Eu realmente desejava que fosse uma boa festa, pois estou há exatos 17 anos sem dar um beijo na boca (tenho 17 anos de vida).


- Falae Caio! Chegou cedo hein? – Disse o Humberto para mim, com um ar sarcástico. Ele é um negro alto, forte, estava vestindo uma camiseta amarela, bermudas azuis com umas estampas esquisitas e um chinelo que também é abridor de garrafas. “Custou 120 reais!”, ele diz com orgulho, uma pessoa vazia por dentro de vangloria pelo que consome, como se isso representasse alguma coisa realmente.

Ser feio em uma sociedade que sempre visa o padrão estético para estabelecer suas relações é complicado. De nada adiantou ser inteligente, as pessoas só falam com você na hora de pedir as respostas das provas, e sequer agradecem por isso. Eu queria ser como o Humberto, desejado pelas meninas, ou até como o Antônio, que estava chegando por ali.

- Caio, será que hoje tu dscola alguma coisa ou vai ficar só na saudade? – gritou Antônio, de longe. Ele vestia uma daquelas calças jeans com vários pedaços rasgados, uma blusa rosa dessas de surfista, cordão de prata e um cabelo liso jogado para o lado, em forma de franja. Dei um sorriso sem graça, sentindo muita vontade de ter uma arma naquela hora, nem que seja para dar um tirinho no pé do infeliz.

Passada a raiva, fui andando pela festa. Muita gente desconhecida pra mim, apenas os “amigos” do colégio (entre aspas porquê eles não são meus amigos, só na hora de pedir as respostas das provas). Além da bebida liberada, a pegação rolava solta, o que me deixava mais puto ainda. Por que nenhuma garota se interessava por mim? Eu sempre achei que fosse uma pessoa legal, mas ninguém quer me conhecer, todos travam na barreira da minha falta de beleza, mundo ingrato…

Cansei, fui para o fundo da festa. Me sentei ao lado dos casais que praticavam encenações de sexo ao ar livre, sem ao menos tirarem as roupas. É quando de longe avisto Norminha, a minha única e verdadeira amiga, grito para chamá-la e para pedir que se aproxime. Norminha não é das garotas mais bonitas, porém, com certeza é a mais legal.

- O que você faz por aqui, Caio? – Ela me pergunta. Penso comigo: “Eu não posso frequentar festas?”. Sempre que vou em uma, as pessoas perguntam com espanto o que faço lá, como se eu fosse um nazista discursando em uma Conferência contra o Preconceito Racial. Respirei fundo e fui bem educado:

– Não sei.

Vi que ela também não sabia muito bem o que fazer e se aproximava de mim.

- Sabe Caio, estou tão sozinha aqui… -  Ela falou para mim, com um olhar caído e triste.

Sem saber o que fazer, fiquei vermelho e sem-graça. Senti meu sangue fervilhando em minhas veias, minha cabeça ficar tonta. Droga, por que eu sempre me apaixono por qualquer mulher que fala um pouco mais carinhosamente comigo? Eu me odeio. Quando me toquei, tinha me afastado e deixado Norminha sozinha, estava sozinho no balcão de bebidas, esperando minha Coca-Cola chegar.

Ao meu lado, sentou-se Humberto, ligeiramente chapado, parecia não saber onde estava?

- Que dia é hoje? – Ele me perguntou. Caguei para a pergunta dele, e num momento de desepero, fiz outra pergunta por cima.

- Humberto, seja bem sincero: Por que as garotas não gostam de mim? – Ele ouviu a pergunta atentamente, e ficou confabulando uma resposta.

- Cara, você bebe? Devia beber umas pra se soltar, toma aqui. – Ele me ofereceu seu copo de alguma bebida verde que não sei o nome. Era absinto.

- Toma cara, é a bebida dos deuses!

Pensei comigo: já estou na merda, não pode piorar. Bebi em uma golada só, e me arrependi amargamente. Aquilo queimou minha garganta até não querer mais, e bastou apenas mais um copo para eu me libertar! Sim, fiquei livre! Até demais…

Não me lembro bem, acho que depois virei mais uns cinco copos de cerveja. Comecei a dançar, e mal me lembro das músicas, só sei que o som entrava pelos meus ouvidos e balançava todo meu corpo, era involuntário. Cheguei em todas as garotas possíveis, inclusive na Norminha, e tenho a vaga lembrança de ter tomado um tapa na cara, o que será que eu disse pra ela?

Mas uma coisa eu me lembro muito bem, da Alessandra. Ela é uma morena de respeito, daquelas de parar a Uniban. Se eu estivesse em sã consciência, eu nunca ia chegar pra ela e dizer: – E aí gata, rola um sentimento? – Ainda mais sabendo que ela está com um Janjão, o lutador de jiu-jitsu do colégio, pitboy que bate até na mãe, sem sentir pena. Talvez meu olho roxo agora tenha sido de algum soco dele.

Talvez o pior de encher a cara seja isso, de não lembrar o que se fez. Então qual é a graça? Percebi que nessa festa que meu ambiente não é esse, meus amigos não são esses, não é isso que tenho que beber. Ninguém me respeita lá, pra que eu preciso me enquadrar nesse padrão?

Hoje estou feliz, mas isso me custou um olho roxo, um tapa na cara e sabe lá Deus mais o que, tenho até medo de descobrir, pelo menos eu acordei em casa, eu acho.
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PS1: Isso é um conto, ou seja, uma história de mentirinha. Não acredite em nada que seja postado aqui.

PS2: Texto publicado originalmente no blog O Crepúsculo.

7 comentários:

  1. Faz muuuito sentimento essa história, tem total razão.

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  2. Pena que temos que presenciar algo para aprendermos. Pena que a insegurança faça parte das nossas vidas. Pena que temos que nos sentir amados para gostarmos de nós mesmos. Pena que não conseguimos perceber aquilo que está bem na nossa frente. Pena não damos valor àquilo que nós temos. Pena.

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  3. hahahaha.... mto bom, Dorly. Excelente conto. Engraçado, sensível e sensato! Obrigado pelos bons minutos que tive, ao apreciar este seu texto.

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  4. O melhor é: 'um chinelo que também é abridor de garrafas.'

    haha

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  5. ... goostei sim, mas acho que o climax dela ficou meio apagado, e tambem se a mae dele é do tipo que deixa o filho de 17 anos numa festa, com certeza o esperaria chegar em casa, e pelo jeito que estava poderia ainda adicionar um castigo nesta historia, e em relação a amiga, ele poderia fazer algo pra compensa-la, o que provaria que ele realmente aprendeu alguma coisa.
    .. são sugestoes, para uma possivel cont ou coisa do genero, mas o texto ficou muuito legal

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  6. É natural um jovem, ainda na flor da adolescência querer ser aceito no grupo popular Fazem o uso do álcool para se sentirem mais a vontade e seguro, o que pode expô-los há situações desagradáveis, que é justamente o que um rapaz na idade do seu personagem não quer viver na frente de colegas. Pelo menos na histórinha, ele aprendeu e soube identificar que aquele círculo de pessoas não valiam as consequencias

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