terça-feira, 27 de julho de 2010

Educação não é uma linha curva em um gráfico qualquer


Qualquer cidadão que leia jornais regularmente poderá perceber que as mais diversas pautas tratam de assuntos polêmicos: corrupção das instituições públicas de segurança, assassinatos nos mais variados graus de crueldade de pessoas que jamais esperaríamos essas ações, taxa de violência sem alguma significativa melhora e muito mais. Assim, é fácil pensar que o Brasil, ou o mundo, não tem jeito. De modo um tanto quanto conformado e submisso, aceitamos o "fato" de que "já estava assim quando eu cheguei" e de que "nada que eu fizer vai ajudar a melhorar". Depois disso, vem o tão famigerado passo de colocar a culpa na educação, sem pensar em como nossas ações influenciam o meio (é um absurdo o policial pedir suborno para liberar o carro que matou o jovem skatista, mas quando somo parados em um blitz, é perfeitamente aceitável "morrer" em 50 reais para se livrar daquela multa por um vidro rachado).

Não importa o seu grau de escolaridade, seu status social, sua religião ou seu clube de futebol: a unanimidade é culpar a educação pelas mazelas da sociedade (e isso me faz lembrar Nelson Rodrigues e o conceito de que toda unanimidade é burra...). Recentemente, li uma entrevista do Ministro da Educação, Fernando Haddad, concedida à jornalista Catarina Alencastro, sobre as estatísticas brasileiras frente a educação mundial. Muito se fala em números: notas sobem, notas descem, alunos mais ou menos qualificados a partir de uma padrão único, massificação que deixaria qualquer distopia huxleiana mais próxima do que imaginamos.

Vou explicar melhor. A entrevista é sobre a nota das escolas brasileira no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que subiu de 4,2 para 4,6 nos últimos 4 anos (numa escala de 0 a 10). Assim, um ensino de qualidade é medido através desse índice; 4,6 diz que o Brasil está menor que a metade, ou seja, ruim (será que precisamos de números para mostrar coisa tão óbvia?).

Mas minha crítica não é essa, é com o fato de usarmos números para qualificar o modo como nossas crianças são educadas. Vivemos em uma sociedade onde a falta de valores é o valor maior e a falta de caráter é a premissa básica dos relacionamentos interpessoais. Será que são notas em Matemática e Física que irão determinar os rumos da população, para que as pessoas tenham consciência crítica e não cometam aquelas atrocidades que lemos nos jornais? Será que é o desempenho em exames, onde os alunos estudam obrigados para "passarem de ano", sem motivação para aprender de modo prazeiroso, irá dizer se a educação está sendo eficiente no lado humano?

Certa vez conversava com um grande amigo meu sobre educação. Ele me contava suas visões, e eu ouvia atentamente. Ele me disse coisas muito sábias, como o fato do governo apenas investir em infraestrutura, aliás, quando investe, esquecendo o caráter humano da educação. Para ele, a solução seria a total reestruturação do modo tradicional de ensinar, descontruindo esse modelo e construindo um novo, baseado nas verdadeiras necessidades dos alunos, que não mais seriam comparados entre eles por notas, e sim pelo seu desenvolvimento pessoal, motivado pela vontade ontológica de crescer, sem, para isso, precisar derrubar outras pessoas, como o ensino competitivo e bancário nos ensina hoje em dia.

Penso que nos falta entender que a verdadeira educação não é uma linha curva em um gráfico qualquer, ou uma estatística em porcentagem. Somos entes humanos que, em sua complexidade, não podem ser medidos em números e qualificados por gráficos ou estatísticas.
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PS: Existe uma escola assim. Ela se chama Brockwood Park School, fica na Inglaterra. Vejam http://www.brockwood.org.uk/

PS2: Há outra, nos Estados Unidos, chamad Oak Grove School, vejam o que acham: http://www.oakgroveschool.com/

PS3: Está gostando dos meus textos? Deixe comentários aqui no blog dando dicas e sugestões. Estamos juntos.

Um comentário:

  1. É bom saber que há outras experências pedagógicos. Temos que aferir o quanto são eficazes e adotar suas boas práticas (às vezes, tendo de adaptá-las à nossa real situação).

    Um abraço.

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