O vento está diferente. Por algum motivo, não sei explicar, o vento está mais calmo, a brisa é mais suave, as árvores dançam regidas pela orquestra dos ventos. Nesse espaço de estranha calmaria, as crianças brincam felizes, sem saber o que é o amanhã. Os senhores assistem o futebol da praça, pensando que o ontem era melhor que hoje. Todos presos às grades do tempo.
O vento continua, sempre novo, em movimento constante, porém um pouco mais fraco. O sol vem atenuando sua vigorosidade, indo de encontro ao outro lado do mundo, levando calor para quem estava no frio há algumas horas atrás.
Gol! Dois a zero para o time dos sem-colete e, repentinamente, uma gritaria generalizada reclama e esbraveja dizendo que o gol foi inválido. O time dos com-colete não liga, já levando a bola para o centro do campo. Os senhores que assistem a partida riem da confusão dos jovens, e memorizam os tempos de outrora, onde jogar bola por mais de quinze minutos não era um sofrimento.
E, num súbito momento, a brisa aumenta. Fecho os olhos e percebo que a visão é responsável por boa parte da organização dos meus outros sentidos. Sem enxergar, minha audição se torna responsável pela minha imaginação e, atento ao que está acontecendo em volta, percebo um grande movimento. Pedaços de graveto quebrando quando alguém se aproxima, o som rasgante do motor de uma moto que passava na rua de trás, chutes na bola de futebol, risadas na roda de cerveja, onde alguém contava uma piada.
Contudo, fui acometido por uma angústia muito grande, que me fez escrever essas letras. Vejo pássaros, vejo árvores, gente feliz, sorrindo e alegre, seria um perfeito mundo da publicidade. Sou livre, mas moro entre grades, grades físicas que separam este condomínio do mundo real. Percebo isso imediatamente ao sair das grades: pessoas apressadas, carros cada vez mais rápidos, polícia em alta velocidade, som ensurdecedor da cidade em movimento, todos correndo contra o tempo, indo de encontro ao mesmo objetivo, muitas vezes ignorado: a morte.
Vivo entre grades, e observar toda essa felicidade aqui dentro me incomoda. Será que não estamos atentos a isso? Nossa estrutura atual de vida faz com que sejamos cada vez mais prósperos e ricos, porém, sempre com medo do outro. A competição se tornou parte central de nossas vidas. Bauman lembra que o Amor está líquido, cada dia mais material, submetidos às lógicas de um mercado desigual.
Vivo entre grades, grades internas e externas, que me separam do outro física e emocionalmente. E, pelo jeito, a tendência é esse medo aumentar cada dia mais e mais. Não sou livre.
Nossa, gradei demais do seu texto cara!!
ResponderExcluirTipo, tudo isso que você falou é exatamente como eu me sinto às vezes... ir de encontro com a morte, creio eu, ser um fato ignorado por quase todos!
Assim, pra mim, essa correria que ocorre do lado de fora do "meu condomínio" ou "das grades que me cercam" vai SEMPRE continuar, mas o que não precisa continuar, é a maneira com que eu me porto, tudo depende da nossa reação... você pode escolher estar sempre angustiado, ou lutar, para diminuir as grades que nos separam do outro.
Enfim, muito bom o texto!
PARABÉNS (=
Mari Ozório