quarta-feira, 21 de julho de 2010

Não deixe a vida passar...


Chega a ser constrangedor. Já perdi a conta das vezes que viemos a esse restaurante, mas esse não é o maior problema. O fato é que agora estamos nos tornando aquele casal que sempre sentíamos pena: hoje em dia nós saímos de casa para jantar fora como um tipo de fuga, pois em local público nossas brigas se limitam a olhares tortos, assuntos vagos e sem nenhum interesse para nós dois. Eu a observo lentamente, seu cabelo está mais bonito, mas não acho que ela tenha se arrumado para mim, o que não faz muita diferença nesse momento. Às vezes tento puxar algum assunto mais longo, só que não sou correspondido, e mereço tal tratamento.

Já se passaram 12 anos desde o dia em que a conheci, lembro como se fosse hoje. Eu tinha apenas 18 anos e nossos olhares se cruzaram pela primeira vez na Praça da República, no centro do Rio de Janeiro. Para praticar a arte de desenhar, eu costumava ir até a praça e desenhava as atitudes das pessoas. Sinceramente, tudo era muito morto, eu conseguia ver as pessoas andando para lá e para cá sem o mínimo de atenção à sua volta: nessa praça há pássaros cantando, árvores dançando, crianças brincando, muitos casais enamorados e você, sempre lendo algum livro.

Na primeira vez que te vi, numa terça-feira de muito sol, você estava lá, imponente, um oásis no deserto de hipocrisia dos relacionamentos daquela praça. Sabe paixão à primeira vista? Não achei que isso existia, até viver aquele momento. Não me julguem bobo ou romântico, controlar o sentimento é burrice, por mais que eu tenha tentado me conter, acabei te desenhando. Olhava fixamente para você, tentava prever seus movimentos e consegui fazer pelo menos 4 folhas de caricaturas bem realistas de sua pessoa.

Depois de uma semana, tomei coragem para me sentar perto de você. No dia você estava lendo 200 crônicas escolhidas, de Rubem Braga. Respirei fundo, olhei ao redor, pensei comigo: “Se eu puxar assunto, ela corresponderá?”, pensei em levantar, pensei em dar mais um tempo, pensei em tanta coisa que acabei virando pra você e disse: “Muito bom esse livro, a melhor crônica é a ‘Meu ideal seria escrever…’”. Você, virou seu rosto para mim um pouco assustada, mas depois começou a rir. Uma risada baixinha, linda, me lembro como se fosse ontem. Perguntei sobre quais livros você gostava, contei os meus preferidos, também contei que gostaria de ser ilustrador de livros infantis. Você adorou. Trocamos telefones, e chegamos até aqui.

Mas, por que será que não consigo mais te dizer essas coisas, hoje em dia? Fico aqui divagando em pensamentos, em vez de tomar coragem e te pedir desculpas. Desculpas? Não fui eu quem errou, foi você! Mas eu podia amolecer um pouco, considerar. O garçom se aproxima e pergunta:

- Boa noite, o que desejam?

Eu desejava saber o que é o amor, pois se for isso que estou passando aqui, então o amor dos filmes e da televisão é algo bem inventado mesmo. Depois de semanas nos encontrando no Praça da República, decidi lhe chamar para sair. Lembro que você gostaria de ir na Confeitaria Colombo e conversar sobre Machado de Assis, e aceitei prontamente. Dois anos depois nos casamos, e mais cinco veio nosso primeiro filho.

- Eu desejo um filé de salmão – você pede de propósito, só por quê sabe que eu não como carne.

Amor, onde nós erramos? Éramos tão felizes, tudo era motivo de alegria. Cada dia era um dia novo, uma nova experiência, um novo começo. Às vezes eu acho que foi tudo culpa minha. Depois que nosso pimpolho nasceu, fui chamado para trabalhar na filial de Brasília como executivo da Phillip Morris. Nunca fumei nem nunca gostei de cigarro, mas trabalhar lá dava uma boa grana, você consentiu quando lhe contei. Disse que não ficaria muito tempo, acabei ficando 5 anos. Convenci meu chefe de ficar 2 semanas lá e 2 semanas cá, quando te contei, você consentiu. Sempre que eu chegava, era uma alegria só. Te entendo, não é fácil viver longe de quem se ama. Eu também sentia muitas saudades, mas não sei lidar muito bem com as palavras quando o assunto é afetivo, e acaba não lhe mostrando isso.
Tudo bem, você tinha razão. Durante algum tempo, você começou a desconfiar de mim. Achava que eu estava com outra. Eu não dava motivo, mas às vezes eu tinha que viajar para fora do país, agora era um homem de negócios. Você sempre foi ciumenta, mas parece que um dia o copo transbordou. Foi quando eu cheguei de Cingapura, lhe trouxe alguns souvenires e muitas histórias para contar, mas te encontrei sentada na cama, descabelada, parecia estar chorando há dias, com um copo de bebida nas mãos. Não consegui distinguir a bebida, mas lembrei que você nunca foi de beber. Num ataque de raiva, tacou o copo em cima de mim; consegui desviar, mas você voou em minha direção, não tive tempo de correr.
Desde aquele dia, nossa relação nunca foi mais a mesma. Também comecei a desconfiar de você, que mulher atacaria o seu marido assim, de uma hora para outra? Eu que colocava a comida em casa, você nunca conseguiu um emprego decente.
Já se passaram muitos anos meu amor, eu sempre venho a esse restaurante sozinho, foi a última vez que te vi antes de você sair correndo e sumir da minha vida. Sempre veio a esse restaurante, me sento sozinho na mesma mesa do nosso último encontro e me recordo de tudo que aconteceu, dessa vez me coloquei a escrever, para jamais esquecer aquele momento. Talvez, algum dia, eu possa te encontrar de novo para te avisar que larguei meu emprego, voltei a desenhar e agora estou ilustrando livros infantis. Pena que só fiz isso depois de te perder…

2 comentários:

  1. Nhaaa' ameei mesmo, muito e de verdade, tudo que você postou aqui, é tudo muito lindo e muito criativo,..
    Nossa, me sinto até grata (yn'
    *-*

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