quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cães e tatus de plástico

E lá estava ela em sua varanda. Pele branca, caninos fortes e afiados, um olhar compenetrado apontando para cada lado onde é possível ouvir um som, por mais inaudível que fosse. Cães possuem uma audição invejável, daquelas que qualquer fofoqueira de plantão faria o impossível para obter. Ao contrário do lugar-comum intelectual, que prefere os gatos, cães animais espertos, porém excessivamente dependentes. Na escala dos animais domésticos, o cão perde de lavada para o gato, no quesito independência, tanto que os bichanos são demonizados há gerações aqui pelo Ocidente, lugar onde a submissão é lei.

Mas voltemos ao cão; especialmente essa cadela peluda, quase um lobo-guará nórdico, encarando um tatu de plástico dilacerado após meses de severas abocanhadas. É sempre um amor com quem a conhece, violentíssima com quem passa na rua fazendo rebuliço ou a importunando, ela sabe diferenciar quem é amigável de quem é perigoso. Gosta de sossego e de carinho, tem medo de fogos de artifício mas se transforma em um Cérbero quando alguma criança pula o portão para pegar uma pipa presa em suas dependências, ou uma bola que caiu perto do canil.

Trata-se de um cão encantador, que destroi quase todos os jornais e revistas que, por algum acidente, caem em seu território restrito e delimitado por sua urina. Ela sabe marcar bem seu território, e qualquer objeto estranho é imediatamente destruído, como o finado tatu de plástico. O tatu não foi o primeiro, antes houve o osso, que em três dias se tornou farelo.

Porém, a maior de suas proezas, que me surpreendeu e encantou, foi quando a entregamos uma casa, de madeira. Casa bonita, grande, perfeita para o seu tamanho - era o que achávamos, até perceber que, passados quatro dias em que ganhou a casinha, nunca entrou. Ficamos apreensivos, com medo dela ter rejeitado seu novo lar, comprado com tanto carinho. Para piorar a situação, nos dias recorrentes ela danou de morder as bordas da porta da casa! Dia e noite, chuva e sol, mormaço e geada, não tinha pra ninguém, lá estava ela destruindo a porta.

- Mas isso já é demais! Eu não aguento, tira a casa dela faça com que ela durma no frio! - esbravejava minha mãe, com uma irritação repentina e sem fundamento. Eu observava curioso, tinha que ter algum motivo para que nossa cadela fizesse isso.

Passados mais alguns dias, ela parou de morder a borda da porta. Todos na família se aliviaram, mas eu continuei com a pulga atrás da orelha. Por que será que ela estava fazendo isso? Por que diabos ela não destruiu a casa inteira logo, parou com o serviço de demolição não-programada pela metade? Tudo se explicou quando, naquela mesma noite, ela dormiu na casa!

Burro todos nós éramos, nossa cadela, que disse lá no começo do texto ser bem inteligente, estava tentando abrir um espaço na porta para poder entrar. Ela não odiava sua casa, aliás, gostava tanto que decidiu fazer uma obra para melhorá-la, otimizá-la, deixá-la mais com a cara dela. E conseguiu. De casa nova, agora ela não desgruda de sua moradia. Quando há fogos de artifícios, ela não corre mais para dentro da nossa casa, já tem o seu aconchego. Agora eu vou ajudá-la com a pintura e talvez uma plaquinha com o nome dela, se eu evoluí e meu polegar opositor me ajuda a manusear ferramentas, por que não ajudar um amigo dependente, mas muito fiel?

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