domingo, 12 de setembro de 2010

O menino e seu brinquedo eterno

Há algumas semanas, voltei ao meu bairro natal. Fui com o intuito de me surpreender: vi a nova geração brincando na mesma rua no qual eu brincava e elas jogavas bolas de gude, corriam umas atrás das outras no pique-parede e muito mais; revi a menina do meu primeiro beijo - continua menina, apesar de termos crescido muito; os amigos já estavam com namoradas, noivas, esposas; a vendinha onde eu comprava meus brinquedos se transformou numa lanchonete.

Compreendo, o mercado alimentício nunca irá morrer, o de brinquedos físicos talvez vá, quando todas as crianças migrarem suas atenções para o computador (pelo menos no meu bairro natal isso ainda não aconteceu). Entrei na lanchonete, o dono é o mesmo que o da vendinha, Senhor Pinto. Cumprimentei-o, e percebi que ele não tinha deixado de vender os brinquedos de criança, apenas os colocou ao final da loja. Fui até lá, avistei as pipas de variados tamanhos, bolas de gude, bonecas de pano, jogos de tabuleiro, peões... que? Peões?!?!?

Tive um ataque histérico interior, que exteriorizei com um simples "caraca!", mas pode acreditar que a surpresa era bem maior. Eu, no alto dos meus 19 anos, não rodava um peão há cerca de 8 anos, tempo suficiente para minha memória ser preenchida com os mais diversos pensamentos prazeirosos, bucólicos, de uma infância bem aproveitada, da época em que brincar na rua não representava milhares de dores de cabeça para os pais.

Chamei o Senhor Pinto, perguntei quanto custava o peão. Dois reais, ele disse, com um sorriso de quem captou minha euforia interna, bem provavelmente se lembrando da época em que ensinou seus filhos - os Pintinhos, carinhosamente chamados assim - a rodarem seus peões. Hoje, são dois marmanjos de 14 e 15 anos, com suas namoradas, que provavelmente quando chegarem aos 20 anos terão o mesmo ataque nostálgico que o meu.

Comprei o peão, enrolei-o na fieira, fechei os olhos e deixei o vento me levar até o passado: 

Dorlyzinho, 9 anos, ao lado de Dorlyzão, seu pai, o ensinando a rodar peão. É assim, meu filho, enrola até aqui em cima, segura bem, taca pra frente e quando chegar até o final, puxa de volta e ele vai sair rodando no chão, essas foram as instruções do Dorlyzão, sabendo que aquele momento iria ficar para sempre na memória, tanto dele quanto do seu filhinho. E o Dorlyzinho enrolou, um pouco nervoso, preparou, arremesou e puxou! O peão saiu voando pelos ares, pois a fieira ficou presa na ponta, acertou o portão do vizinho, o que encheu Dorlyzinho de vergonha.

E ele não desistiu. Todos os seus amigos já sabiam rodar peão, menos ele. Já não bastava não saber andar de bicicleta - o que só aprendeu no ano seguinte, aos 10 anos -, rodar o peão era questão de honra. Não aprendia de modo algum, ficava decepcionado, triste, esqueceu o peão de lado, com raiva de sua incapacidade. Passados alguns meses, decidiu voltar ao treinamento. Comprometeu-se a uma prática rígida: todos os dias, por duas horas, se dedicaria a tentar rodar o peão, até que...
Descobriu o problema! Por ser canhoto, Dorlyznho enrolava a fieira ao contrário e, para tacar corretamente, precisava virar o peão de ponta-cabeça em sua mão! E assim, na primeira tentativa, tacou o peão do modo correto e lá estava ele girando no chão! Momento mágico, jamais esqueceu, foi correndo chamar o Dorlyzão pra ver, demonstrou todo bobo sua técnica, e seu pai percebeu que o peão do menino girava bem mais forte que o dos outros.

Abri os olhos, o vento foi-se e deixou a lembrança: lembrei da técnica exclusiva para os canhotos, enrolei a fieira no peão e lá estava o peão rodando no chão, com a mesma graça de anos atrás, com o mesmo senso de vitória e superação no meu olhar, com o mesmo sorriso de criança que transbordava por quem passasse e visse um menino de 19 anos feliz, mas muito feliz da vida, rodando peão em plena rua.

Escrevo com meu peão aqui em frente, e tenho a mania de escondê-lo. Hoje, o achei embaixo do meu travesseiro, mas eu o perco para achá-lo e me surpreender novamente, viver a mocidade com a surpresa de achá-lo cada dia em um canto diferente da casa, me dou ao luxo de ser menino novamente, mas um menino e seu brinquedo eterno.

3 comentários:

  1. Dorly e seu peão *--*
    É tão lindo te ver feliz rodando seu peão novamente =)
    E é mais lindo ainda ver que consegue transparecer essa felicidade em um lindo texto.

    Te amo, meu menino! =)

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  2. Lindo texto, Dorly...tão boa essa nostalgia, lembrar dos tempos que não voltam mais...coisas pequenas que fizeram tão felizes nossos momentos na mais tenra infância...

    Época em que éramos felizes com nossa inocência...

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  3. Eram bons esses tempos ainda havia doçura, masi Mestre, faz parte do amadurecimento entender que os novos vão nos substituir com suas novidades !

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