O sofrimento humano é contagioso; a ponto de algum de nós percebermos que somos o mundo; sofremos, temos ânsias, sentimento de culpa, ansiedades, etc. Um dia o sofrimento virou entretenimento, foi chamado de tragédia, de dramaturgia, virou romance, depois cinema; mas nenhum desses toca tanto a alma quanto o sofrimento real, observado no dia-a-dia; sofrimento que experimentei sobre este momento que vos escrevo.
Paulatinamente eu o experimentava, em dosagens homeopáticas, ao observar uma moça de meia idade, óculos remendados, andar trôpego, olhar tépido, coração sôfrego. Nas mãos levava sacolas com remessas de variados tipos de balas, uma vasilha na mão com os produtos carinhosamente distribuídos. Eu estava parado, no ponto de ônibus, mas mirava a moça ao fundo do horizonte, entre duas árvores, preparando a nova safra para ser vendida.
E assim ela se levanta, seu olhar cabisbaixo reflete uma alma obscura, enigmática, até misteriosa, alma essa que foi modelada ao longo dos anos. Imagino que essa cólera não tenha nascido de ontem para hoje; foi um processo longo, demorado, dolorido, cirúrgico, e quando olhei nos olhos daquela moça senti que tudo aquilo também havia acontecido comigo, que eu também sofro, também tenho medo, tenho ânsias, que a esperança está lá, sempre fora do nosso alcance, mas ainda nos movimenta. O melhor jeito de ser um humano é enxergar o humano nos olhos do outro, e isso dói, pois funciona como um espelho, também nos enxergamos, e enxergamos o que não queremos.
O último suspiro ainda não chegou, ela economiza o ar para repetir a mesma frase, sempre: "Oi, boa noite. O senhor poderia me ajudar comprando um saquinho dessa bala?". A voz sofre para ultrapassar a barreira de outros sons ao redor do ponto de ônibus. Uma simples e inocente pergunta é respondida com olhares tortos, desconfiados, indignados, arrependidos ou resignados. Alguns ignoram, esquecendo que ali é um ente humano marginalizado, tragando dor e engolindo labuta.
Na minha última parada ao ponto de ônibus, me surpreendi com o que vi. Essa moça, triste como sempre, mas sempre com a esperança no fim da tristeza, encontrava-se dormindo. O motivo maior do meu espanto não era com o sono repentino da moça no ponto de ônibus, e sim pelo fato dela repousar em plena calçada, e nenhum dos transeuntes se incomodavam; aliás, não demonstravam o incômodo, mas como eu bem disse, o sofrimento humano é contagioso, mas nossa apatia camufla qualquer tipo de ação.
Ação essa que surgiu em mim. Transpassei a apatia e fui até a moça que jazia viva no sono profundo. Meu coração batia forte, não sabia o que falar, apenas queria ajudar, nem que fosse com palavras, com algumas compras de balas que depois eu daria para alguém; só queria ajudar um ser humano como eu. Ao me aproximar, uma moça também sensibilizou-se com a situação, abaixou para falar com a moça. As duas conversaram, parece que se conheciam, foram embora juntas.
Desde então, não vejo mais a moça das balas. Alguns dizem que ela trocou seu ponto de vendas na Barra da Tijuca pelo Méier, onde supostamente mora. Por mais que seja prepotência minha, até hoje sinto sua dor, o que me incomoda, me deixa indignado, envergonhado, com mais sede por mudança.
Na minha última parada ao ponto de ônibus, me surpreendi com o que vi. Essa moça, triste como sempre, mas sempre com a esperança no fim da tristeza, encontrava-se dormindo. O motivo maior do meu espanto não era com o sono repentino da moça no ponto de ônibus, e sim pelo fato dela repousar em plena calçada, e nenhum dos transeuntes se incomodavam; aliás, não demonstravam o incômodo, mas como eu bem disse, o sofrimento humano é contagioso, mas nossa apatia camufla qualquer tipo de ação.
Ação essa que surgiu em mim. Transpassei a apatia e fui até a moça que jazia viva no sono profundo. Meu coração batia forte, não sabia o que falar, apenas queria ajudar, nem que fosse com palavras, com algumas compras de balas que depois eu daria para alguém; só queria ajudar um ser humano como eu. Ao me aproximar, uma moça também sensibilizou-se com a situação, abaixou para falar com a moça. As duas conversaram, parece que se conheciam, foram embora juntas.
Desde então, não vejo mais a moça das balas. Alguns dizem que ela trocou seu ponto de vendas na Barra da Tijuca pelo Méier, onde supostamente mora. Por mais que seja prepotência minha, até hoje sinto sua dor, o que me incomoda, me deixa indignado, envergonhado, com mais sede por mudança.
Eu também sofro, muitos ou a maioria guarda sofrimentos internos ou externos, como no caso da moça das balas. O problema não esta na condição do sofrimento em si mesma, está em que quando vemos outra pessoa sofrendo temos medo de nos aproximar e constatar que somos redículos e fazer o papel de , "tonto del culo ",pois sofrer é sentir pena de si mesmo, mesmo sabendo que na maioria das vezes, nossos sofrimentos são causados por nos mesmos, com escolhas mal pensadas ou egoísmos latentes. Acredito que o verdadeiro sofrimento é áquele que não depende de nossos erros, mas sim dos erros alheios.... Ana
ResponderExcluirAh, você escreveu sobre a moça!
ResponderExcluirA gente tem sempre que escrever sobre o que nos causa espanto.
Não curti não... mto clichê isso de dizer que "o sofrimento humano foi chamado de tragédia, dramaturgia etc." - só quer dizer que você não sabe nada de tragédia, dramaturgia etc., quiçá de "sofrimento humano".
ResponderExcluirVerdade Anônimo, sou um amador nos assuntos da vida, principalmente no que concerne à arte. Porém, tenho um ponto a favor, não me escondo atrás de anonimato, isso já é um grande avanço em minha existência, poderia ser na sua também.
ResponderExcluirEntão, aguardo recomendações, ou uma explicação, sobre o que se trata sofrimento humano. Espero que o senhor (ou senhora) anônimo seja um guru dos sentimentos e possa me guiar no caminho da iluminação espiritual.
Aguardo mais críticas covardes.
Atenciosamente,
Dorly Neto, sem medo de se apresentar.