quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Voluntária vontade de se perder


Diante da novidade, temos algumas reações triviais; podemos fugir, nos esconder, encarar de frente, ser indiferente; não importa, pois não há reação melhor ou pior sem uma avaliação crítica de qual novidade enfrentaremos. Existe uma diferença muito grande entre mudar de país ou de bairro, e no meu caso foi de bairro a opção.

Meu modo de encarar essa novidade é com minha bicicleta. Em toda minha vida, contabilizada atualmente nos meus 19 anos, só mudei de bairro três vezes, e em todas a companheira de duas rodas e não-poluente estava lá, para me ajudar a desbravar novas terras. Agora, já crescido, com um pouquinho mais de experiência que uma nova visão de mundo me trouxe, a sensação de pedalar foi outra, conto pra você:

Alguns trajetos desse novo bairro eu já conhecia; ignorei-os, pois o importante nessa nova busca é se perder, e eu me perdi. Voluntariamente. Se eu soubesse o que tinha na esquerda, virava para a direita; se eu soubesse o que há em frente, voltava. O prazer de estar perdido não está contido na solidão da ausência de controle, e sim na motivação de buscar, de saber onde está, de saber quem é, quando é, para quem é, e expandir o campo do conhecimento.

Depois que eu sabia todos os caminhos, começava de trás pra frente, apenas para me perder de novo. Voluntariamente, fazia-me esquecer, só para poder achar novamente, pois cada dia é um dia novo, cada dia o sol é outro, a rua é nova, as árvores se renovam, renovam o ar, renovam a vida, que se perdem e se acham.

Se existe o amor, ele está perdido, e isso é bom; podemos procurá-lo.

6 comentários:

  1. Lindo texto, Dorly...o bom da vida são as descobertas...

    ResponderExcluir
  2. QUE COISA BELA!
    Está muito bom, entendo seu momento, é um bom momento...importante passar por ele.
    Me lembrou Cartola:
    "Deixe me ir
    preciso andar
    vou por aí a procurar
    rir pra não chorar
    ...
    Se alguém por mim perguntar
    diga que eu só vou voltar
    quando me encontrar. "

    ResponderExcluir
  3. Eu nunca ia conseguir fazer isso. Pois fico o tempo inteiro só nas coisas que eu sei, que eu conheço, tenho medo de me arriscar. Acho quem consegue fazer isso BRILHANTE!
    E amei seu texto! LINDO!!!!!!!
    Bjs

    ResponderExcluir
  4. A maioria foge mesmo... Medo do desconhecido ou do pressuposto malogro que a acomodação sugere, só para permanecer onde está.
    Que bom que a gente é do tipo que vai lá ver e não se conforma apenas com o relato dos outros.
    Cool! ;)

    ResponderExcluir