Subitamente senti uma vontade clandestina de ligar para a minha avó. Esta última sentença me sentencia. Parece que não gosto da Dona Carminha, como carinhosamente a chamamos. Não é isso. Longe disso, inclusive. Porém, uma certa falta de tempo voluntária, por excesso de trabalhos e outros estímulos, me distanciam da família. Da minha família tradicional, desde que adotei o mundo como nova casa.
Porém, Dona Carminha está lá. Ou vó; vovó para os mais íntimos, e netos. Até bisneta ela já tem, agora ganhando mais uma nomenclatura gentil: Biza Carminha. Nos vemos apenas em reuniões familiares, ou em visitas esporádicas onde ela mora. Fui criado pela vovó, mas hoje me mudei, e mudei. Fui mudado. Senti que hoje foi a prova de que a vó não saiu do coração, nem da lembrança. Quis ligar pra ela.
Vovó vai morrer. Não que ela tenha alguma doença grave e seus dias estejam contados. Longe disso. O problema é que ela já viveu mais do que ainda tem para viver, e só de pensar nisso tenho medo. Tenho medo pela minha vida também, pois projeto meu pensamento para o futuro. Um dia eu estarei nessa linha, neste inafiançável dia em que eu vou perceber que já vivi mais do que tenho para viver, e o sentido da vida terá de ser descoberto, ou inventado.
Liguei pra vovó. Ela atendeu e meu coração disparou. Parecia que eu estava conversando com uma desconhecida! Alguém que nunca vi, nunca ouvi ou conheci, alguém que eu não sabia como ia me tratar, ou alguém com a qual tivesse sérios problemas para resolver, mas sem saber como. Tinha uma dívida com vovó, daquelas culpas católicas que nos perseguem quando menos queremos. Sua voz doce de vó me remeteu à infância. Me senti com quatro ano, trocando fonemas e aprendendo a coordenar as palavras e o pensamento, mas com muito amor no coração.
Ainda estou em São Paulo, vó; foi o que eu disse, e sua resposta mostrou uma mistura de orgulho pelo neto que está ganhando asas, a tristeza da distância e a felicidade de ver uma vida melhor para suas gerações futuras, que levarão esse sangue de luta para frente. Por um segundo eu amei minha avó. Amor mesmo, não aquele amor que apenas falamos, mais banalizado que o bom dia, senti amor sem esforço.
Ela começou a dizer coisas que cabem as vós dizerem. Tome cuidado, meu filho, não saia tarde, não saia sozinho, fique sempre com os amigos, estude direitinho e volte logo. Confirmei, revelei para ela minha saudade do Rio e da família. Mas, infelizmente tive que desligar, a ligação sairia cara e minha vó ainda não sabe usar o Skype.
Ao fim da ligação, um aperto no coração: minha vovó vai morrer. Mas ela parece não se importar com isso, e achei isso bonito. Achei bonita a vida, e deve ser mais bonito ainda saber que não temos para viver aquele tempo todo que já vivemos. Passado é morte, futuro é pensamento; vive-se agora, no minuto em que senti vontade de ligar e liguei, foi ali que eu vivi.

Textos sobre avós me emocionam.
ResponderExcluirRealmente, não deixe que o mudem. Ainda que tenha o mundo como família, não deixe de amar aqueles que cuidaram de ti como o tesouro mais precioso...
E se cuida por Sampa, menino, e volta logo e bem!
Caro Dorly,
ResponderExcluiruma bela crônica matriarcal!
Luto contra a razão para parar de pensar que elas já viveram mais do que tem para viver.
Inspirado por você, liguei para minha mãe e hoje visitarei minha vó. Não que precise de estímulos para fazê-lo, mas eventualmente precisamos lembrar que nossos ancestrais que permitiram que hoje sejamos cidadãos do mundo.
Obrigado pela inspiração.
E viveu plenamente. É bonita, é bonita e é bonita. Viva! ;-)
ResponderExcluirOi, Dorlyzinho! Saudaaaade docê! Lindo texto, querido! Ah, só para contar... todos vamos morrer, amor. E talvez também já tenhamos vivido mais do que temos pra viver... vai saber como, né? O jeito é cuidar do Hoje, né? Bem, preciso ir... vou ali ligar para os meus pais... ;)
ResponderExcluirPois é, também criei asas... mas como gostaria de ainda estar no ninho!!!
ResponderExcluirAmo vc!!!
Filho, ao ler o seu texto foi inevitável conter as lágrimas. Sua sensibilidade, seu carinho, o respeito pela sua avó me emocionaram. E as suas palavras... Como me orgulho de você! Cuide-se bem.
ResponderExcluirAmo você!!!
Mamy
Muuuuuuuuuuuuuuuuuito "ORGULHO"
ResponderExcluirVc resgatou em mim o sentimento de que podemos viver em um mundo sem fronteiras.
Amo e admiro muito você,
Att,
Filho, aprendiz do Neto
Caramba, que nostalgia. Lembrou meus avós paternos, que ja não tenho. Um abraço amigo, parabéns pelo texto.
ResponderExcluirSinto falta deste amor tão puro de vó. Há dez meses sei o significado da palavra saudade e isso doe. Um beijo a dona Carminha =)
ResponderExcluirDorly, que lindo esse texto. Escrevi no meu blog sobre minha bisa (pois é, tenho a sorte de ainda ter bisa) e meu medo de perdê-la (na verdade, de saber que essa separação está cada vez mais próxima...)
ResponderExcluirVocê é um garoto exxxpecial!
Adorei seu texto. Belo exemplo de jornalismo literário!
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