quarta-feira, 6 de abril de 2011

O meu guri

Como fui levando
Não sei lhe explicar
Fui assim levando
Ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá
(O Meu Guri - Chico Buarque)

Era seu aniversário. Doze anos, me confessou, com um sorriso meio tímido e sofrido. Falou pouco, mas nos poucos momentos em que consegui alcançar seus olhos - o menino não me encarava -, vi refletir muitos desejos. Não queria uma festa, nem videogame, nem bolo, muito menos uma canção de parabéns; ele queria um prato de comida. Não pediu um prato novo, e sim o que eu deixasse no meu. Queria o resto. Aceitava o resto. Mas o resto é muito pouco, e eu sei. Ele também sabe, o menino. Ele tem fome, estômago e esperança por alguém.

Perguntei seu nome. “Antônio”, me respondeu, na primeira vez em que me encarou. Agora, lia em seus olhos a surpresa pela pergunta e o meu verdadeiro interesse fez-se diálogo. O convidei para sentar em minha mesa, levando o espanto do menino ao ápice, mas sem nenhuma recusa. Ainda sem graça, por todos na lanchonete o fitarem como um potencial perigo para a ordem vigente dos almoços, sentou-se e pôs-se a olhar para o chão, em penitência pela sua condição. “Antônio, levanta a cabeça, o prato já vem”, me encarou novamente, dessa vez com uma espantosa atenção.

Reparei em seu corpo. Alguns dentes lhe faltavam, manchas de sol e do tempo nas ruas, feridas não cicatrizadas, cabelo bem aparado e chinelo novo. A bermuda, vermelha e branca, combinava com a blusa verde, que ele carregava nos ombros. Nesse momento, me senti muito próximo do Antônio. Ele era meu sofrimento, era meu espelho, meu irmão e minha salvação: ele era o meu guri. A dor daqueles olhos de menino se travestiram em meu âmago, penetrando como só um poeta consegue chegar ao centro da alma, sem se queimar no fogo do ego. Ele era a minha esperança.

Enquanto a comida não chegava, conversamos um pouco mais. Falamos de futebol (Antônio torce para o Botafogo), ele comentou que foi para a rua aos oito, dizendo que ia para a escola e não voltou mais. Sabe ler, apesar das dificuldades com palavras mais extensas e períodos com cinco orações ou mais. Diz jogar muita bola e seu primo, que também mora na rua com ele, consegue uma bola para jogarem aos sábados no Parque do Flamengo. Ouvia com atenção, pois era perceptível a alegria do menino ao contar sua vida. Ouvir é um dom que nos faz seres humanos dialógicos. Bondade é saber ouvir histórias.

O prato chega, ele se esquece completamente de mim. O menino comia rápido, com a urgência de quem precisa viver aquele momento como se fosse o último de toda a existência. Poderia até ser. Passados dez minutos, o prato vazio e o suco de abacate no final, Antônio ruboriza. Via uma suave perturbação em seus olhos, até que me toquei e disse: “você quer me agradecer, não é?”. E era. Um sincero e completo “obrigado” eu ouvi, seguido de um sorriso satisfeito; de alma e de estômago. Não tinha o que dar de presente de aniversário para Antônio, mas me senti compelido a oferecer apenas algumas palavras: “Fique sempre atento. Se um dia te aparecer apenas uma oportunidade, a menor que seja, agarre-a com toda urgência. Ela vai ser só sua, e isso não podem te tirar nunca mais”.

Não sei o quanto ele vai lembrar desse dia, dessa frase, daquele prato de comida e da conversa que tivemos. Ele se despediu, me desejou um bom dia de trabalho e sumiu, do mesmo modo que apareceu, simples e misterioso. Em seu aniversário, o mundo ganhou um sopro de vida e eu ganhei um guri. Hoje ele vive dentro de mim, andamos de mãos dadas numa imanente esperança.

2 comentários:

  1. Que presente!!! Estou falando do presente que vc recebeu: conhecer o Antônio. Bjusss

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  2. Corre que ainda tem tempo!
    Sorteio Marcadores e Livretos Faz de Conta!
    Confira http://fazdiconta.blogspot.com/

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