segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A natureza da amizade

Nasci na selva; de certo modo, não foi tão ruim assim, hoje avaliando mais calmamente. Fui criado na floresta, livre, ingênuo, com minha família e amigos. Apesar de ser meio pesado e peludo, tentava subir nas árvores, e os macacos diziam que isso não era pra ursos, só para eles próprios, pássaros e bichos-preguiça. Não desistia e tentava. Apesar da aparência bruta e feia, atrás de todos os pelos tinha um coração alegre.

Mas, nem tudo são flores, fui raptado e levado para a cidade. Virei atração de circo. Domado, aprendi truques, cambalhotas, divertia o público. Rasparam todo o meu pelo, fiquei irreconhecível, triste. Tristeza maior foi saber que esse era meu destino, até que...

Menina bonita encontrei na plateia, certa vez. Olhos atentos, nitidamente desconcertados com todo aquele circo, obviamente foi forçada por seus pais a estar ali. Coitada, parece ser tão gentil... e eu aqui preso, sem poder falar com ela. Mas, imagina se eu me aproximo e tento falar algo, o susto que a menina iria tomar? Desisti da ideia só de pensar.

Dias e noites passaram. Os espetáculos continuavam, incessantemente. Certo dia, estava a menina novamente, dessa vez sozinha, chegou logo depois do espetáculo de acrobacias. Fiz meu número, um pouco desconcertado pela presença dela novamente. Ursos, apesar da brutalidade no visual, possuem uma fragilidade muito grande, parte gerada pela ingenuidade de ter sido criado na floresta, perto de tanta inocência.

Ao fim do espetáculo, me levaram para minha jaula. Ali, parado, pensando nos amigos macacos e bichos-preguiça, a menina se aproxima e diz, Qual o seu nome?. Eu fico sem ação, tremo um pouco, ursos são muito medrosos, descobri isso ali mesmo. Meu nome é... é... não tenho!, respondi, e realmente não tinha, nunca me deram um nome. Ela, com toda a delicadeza de menina e os olhos transbordando amizade sincera, mesmo com os poucos olhares e palavras que trocamos, me disse, Olha, então, eu vou te chamar de Ursinho!

Ursinho? Mas como ela sabia que eu era um urso, mesmo sem meus pelos e frágil e medroso daquele jeito? Fiquei novamente sem ação, dessa vez beirando o estado de choque, sentindo pela primeira vez uma coisa chamada cumplicidade. Não era minha aparência, não era meu jeito, e sim meu interior que, de algum modo, a menina conseguiu captar, também com sua inocência de menina, linda menina, me encantou no primeiro dia que também repudiou todo aquele circo a nossa volta.

Passado uma semana, a menina descobriu como abrir minha gaiola. Fugimos. A levei para a floresta, onde a apresentei aos macacos, aos bichos-preguiça ao tucano e ao sábio gavião. Ali, brincamos, pulamos, corremos, nadamos, apenas não voamos. Ficou tarde, pegamos no sono e dormimos todos à beira do lago. Ao acordarmos, descobri que a menina se descobriu beija-flor, e pôs-se a voar de flor em flor pela floresta, levando vida através da sua beleza. Até hoje ela tenta me ensinar a voar, sou um aluno aplicado, com algumas dificuldades, mas nada que não possamos superar.

Um comentário:

  1. Sem querer me gabar, mas foi a coisa mais bonita que você escreveu até hoje! HAIHIUSOGHOIUAHOISUHOI *------*

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