quinta-feira, 9 de junho de 2011

As motivações políticas por trás da greve dos Bombeiros


Tudo se resume a disputa entre partidos

Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz a uma cruz e uma espada

(Vícios de Linguagem - Engenheiros do Hawaii)

De antemão, é necessário elucidar alguns pontos essenciais. A urgência do momento e novos fatos que surgiram na última semana me fizeram processar esse texto, após algumas semanas de análise do quadro histórico que vivemos. Procurei uma cronologia dos acontecimentos mais relevantes, em forma de vitral, coletando pequenas peças e, assim, formando um quadro geral.

Uma crise militar, envolvendo o Corpo de Bombeiros e a Polícia, juntamente com alguns outros setores organizados como a sociedade civil e os professores do Estado, infla a opinião pública, motivando debates calorosos e ações espontâneas de solidariedade, seja em símbolos nas indumentárias ou em passeatas e apoio de ocupações. O motivo inicial das manifestações, iniciadas há pelo menos 50 dias, é a reivindicação por melhores salários para os Bombeiros do Rio de Janeiro, que hoje recebem a pior remuneração do Brasil.

A greve é constitucional e essencial para a democracia, e ocorre principalmente quando os trabalhadores exigem melhorias nas condições de trabalho e reajuste de salários - sendo essa última com muito mais frequência no país. Mas as manifestações não tiveram um aumento significativo durante abril ou no começo de maio, até que algumas ações políticas de incentivo à mobilização começam a ocorrer no interior de Estado.

Tendo seu epicentro em Campos - reduto político do ex-governador e atual deputado federal Garotinho, o Corpo de Bombeiros se mobilizou em uma greve geral, convocando uma grande ação para o dia 3 de junho, na intenção de tomar o quartel principal dos Bombeiros. A ordem: convocar o máximo de bombeiros em outras cidades do estado, e quem mais que quisesse ou pudesse fazer pressão. Durante esse período, Garotinho andou pela Região dos Lagos, em reuniões do seu partido, o PR, mas por onde passava começava uma movimentação dos Policiais Militares, que integravam a luta dos Bombeiros, fazendo carreatas e até queima de fogos, como foi visto em Cabo Frio.

O bombeiro-sargento A. Junior disse que já possui 10 ônibus preparados para uma passeata de domingo, prevista para as 10 da manhã, na Praia de Copacabana. Por onde passava, Garotinho mostrava sua solidariedade aos Bombeiros - tática interessante para quem possui a imagem ferida com boa parte da sociedade.

Chega o dia D, 3 de junho. Milhares de militares-bombeiros, de todos os cantos do estado, invadem o quartel principal, no Centro do Rio de Janeiro. Não apenas os bombeiros, mas alguns entusiastas do movimento, como parentes e familiares. Cabral devolve a investida com ataque maciço do BOPE, as forças especiais criadas para combater os mais perigosos criminosos da sociedade carioca. Isso foi um absurdo, olhando por um viés humanista.

Antes dessa invasão, durante a manhã e momentos antes da caminhada até o quartel, Garotinho discursou para os bombeiros, arrancando aplausos fervorosos de todos os presentes. Desta manifestação, 439 bombeiros foram presos. O governador chamou os manifestantes de vândalos e vagabundos.

Essa discussão todos conhecemos, mas elas se situam apenas na superfície do problema. Toda essa atuação do Garotinho por trás do movimento só tem uma explicação: início de golpe político. A greve é justa e por mim incentivada, não nos moldes acalorados como vem se seguindo, mas os bombeiros precisam prestar atenção e seguir o que foi dito pela deputada Cidinha Campos, no dia 28/04 (vídeo no final do post). Neste discurso, ela propõe a melhor solução e ainda situa no espectro atual a motivação política por trás da manifestação.

Afirmo que, infelizmente, os bombeiros estão sendo usados como uma peça de xadrez para disputas políticas entre dois jogadores grandes e experientes raposas do ramo: Cabral e Garotinho. A sociedade civil organizada precisa sim apoiar a greve, mas ficar de olho atento sobre quem são os atores políticos por trás dessas motivações sociais de busca por melhorias de condição no trabalho e reajuste de salários. Com efeito, para políticos como Garotinho, que apenas está interessado na queda do poder vigente, ajudar a inflar uma manifestação política e provocar uma crise generalizada é algo muito útil e eficiente, porém, as vontades do povo ficam para seu segundo plano. Para Cabral a mesma coisa, ele não deseja apenas o fim da greve, e sim a manutenção do poder.

Com efeito, eu incentivo a continuidade da greve e a participação de outros sindicatos - como o dos professores, dos médicos, dos policiais e de quem mais se interessar e seja ativamente prejudicado pelo Estado. Não deixemos nenhum político com intenções turvas sujar uma manifestação democrática e de direito.

Veja o vídeo da deputada Cidinha Campos, denunciando o esquema de uso político nas manifestações, e minha principal inspiração para esse retrato em forma de texto:

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